Folha de São Paulo do 14 de Maio de 2022. Método científico demonstra benefícios da capoeira para o cérebro das crianças. Pesquisa randomizada mostra melhora da coordenação nos pequenos que participaram das aulas de capoeira, além de efeito positivo sobre em memória, autocontrole e atenção

Caipira de cintura dura que sou, confesso que sempre senti a presença de certo abismo cultural a me separar da capoeira. Mas os preconceitos que a gente tem costumam ser demolidos nos lugares mais improváveis. Assim foi que, em plena Águas de Lindoia (SP), pacato município que costuma ser palco de congressos científicos todos os anos, descobri que o abismo talvez tivesse sido só coisa da minha cabeça, afinal de contas.

Foi a primeira roda de capoeira que assisti de perto, no intervalo de uma das sessões do congresso. Comandava-a um velho conhecido, o neurocientista Sidarta Ribeiro, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), e o que me deixou de queixo caído foi a capacidade que essa combinação de movimentos, música e poesia tem de transportar o sujeito para outro mundo de repente. Uma experiência espiritual, em suma. Mas quem disse que experiência espiritual não combina com ciência?

Um estudo assinado por Ribeiro e outros pesquisadores acaba de fazer uma das primeiras análises rigorosamente quantitativas do efeito da prática da capoeira sobre o desenvolvimento das crianças.

O nome que encabeça a lista de autores da pesquisa é o de Valter Fernandes, embora os capoeiristas o conheçam como Mestre Curumim. Fernandes, que há décadas dá aulas de capoeira para crianças da Cidade de Deus, no Rio, fez seu mestrado no Laboratório de Neurociência do Exercício da UFRJ, estimulado em parte pelo contato com Ribeiro. “Fui picado pelo mosquito da ciência, digamos, pela vontade de pesquisar e investigar”, conta. “Vi na pesquisa uma forma de entender melhor os efeitos da capoeira, de valorizar essa arte e buscar respostas.” O trabalho teve orientação principal de Andrea Camaz Deslandes, que coordena o laboratório da UFRJ.

As perguntas que o capoeirista-pesquisador e seus colegas estão tentando começar a responder são mais amplas do que a dança/arte marcial de origem africana. Acontece que, embora haja evidências de que a prática de atividades físicas tem impacto positivo sobre aspectos cognitivos, incluindo o desempenho escolar das crianças, intervenções específicas feitas com esse intuito nem sempre mostram resultados claros.

Esse paradoxo talvez indique que nem todas as formas de atividade física têm o mesmo impacto. Talvez outras variáveis, como a complexidade dos movimentos, a criatividade e os aspectos sociais da prática atlética, sejam necessárias para que os efeitos no cérebro e no comportamento se manifestem.

Se esse for mesmo o caso, a capoeira parece ser um excelente instrumento, justamente por misturar vários desses elementos num todo harmonioso. Para testar isso, os pesquisadores realizaram o primeiro estudo randomizado e controlado dos efeitos da prática.

Ou seja, foi um teste no qual os participantes —67 crianças, com idade entre 8 anos e 13 anos— foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos. Um deles teve aulas de capoeira durante quatro meses, enquanto o outro ficou como grupo de espera (mais tarde, após o fim do estudo, eles também tiveram acesso às aulas).

Os resultados estão em artigo no periódico especializado Mental Health and Physical Activity. A comparação entre os grupos revelou não só uma melhora da coordenação motora entre as crianças que participaram das aulas de capoeira como também um efeito positivo sobre as chamadas funções executivas —coisas como memória, autocontrole e atenção.

Os efeitos são modestos, mas indicam que o potencial para novos estudos sobre o tema não deve ser negligenciado. “Quando a gente conversa com os mestres mais antigos, a ideia de que a criança fica mais inteligente fazendo capoeira é uma coisa certa. Mas é uma maneira importante de traduzir o que a gente vê na nossa vivência prática”, diz Fernandes.

Reinaldo José Lopes– Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

Foto: Eduardo Anizelli – FolhaPress

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